quinta-feira, 11 de julho de 2013

MODELAGEM NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA: CONTRIBUIÇÕES PARA O DEBATE TEÓRICO

1. Introdução
Diversos autores têm argumentado pela plausibilidade de usar Modelagem
Matemática no ensino de matemática como alternativa ao chamado “método
tradicional”1
 (Bassenezi, 1990, 1994; Biembengut, 1990, 1999; Blum & Niss, 1991;
Borba, Meneghetti & Hermini, 1997, 1999). O movimento de Modelagem Matemática
internacional e nacional tomou contorno nos últimos trinta anos, contando com a
contribuição decisiva de matemáticos aplicados que migraram para a área da Educação
Matemática (Blum & Niss, 1991; Fiorentini, 1996). A partir daqui, deixaremos de usar
o adjetivo “Matemática” para o termo “Modelagem” – ficando implícito – como um
recurso para evitar repetições.
No Brasil, Modelagem está ligada à noção de trabalho de projeto. Trata-se em
dividir os alunos em grupos, os quais devem eleger temas de interesse para serem
investigados por meio da matemática, contando com o acompanhamento do professor
(Bassenezi, 1990, 1994; Biembengut, 1990, 1999; Borba, Meneghetti & Hermini, 1997,
1999). Porém, outras formas de organização das atividades são apontadas na literatura.
Franchi (1993), por exemplo, utilizou uma situação-problema “dirigida” para
sistematizar conceitos de Cálculo Diferencial e Integral. Jacobini (1999) problematizou
um artigo de jornal com os alunos para abordar conteúdos programáticos de Estatística.
As experiências no Brasil possuem um forte viés antropológico, político e sóciocultural, já que têm procurado partir do contexto sócio-cultural dos alunos e de seus
interesses (Fiorentini, 1996). Esta pode ser considerada uma marca dos trabalhos
brasileiros de Modelagem, ao contrário do movimento internacional que não apresenta
esta preocupação de forma muito aparente (Kaiser-Messmer, 1991).
As práticas escolares de Modelagem têm tido fortes influências teóricas de
parâmetros emprestados da Matemática Aplicada. A compreensão de Modelagem é
apresentada em termos do processo de construção do modelo matemático, traduzido em
esquemas explicativos. Um modelo matemático, segundo Bassanezi (1994, p. 31), é
quase sempre um sistema de equações ou inequações algébricas, diferenciais, integrais,
etc., obtido através de relações estabelecidas entre as variáveis consideradas
essenciais ao fenômeno sobre análise.
Há indícios, porém, das limitações desta transferência conceitual para
fundamentar a Modelagem na E(e)ducaçao M(m)atemática. A principal dificuldade diz
respeito aos quadros de referências postos pelo contexto escolar; aqui, os propósitos, a
dinâmica do trabalho e a natureza das discussões matemáticas diferem dos modeladores
profissionais. Matos e Carreira (1996) concluem que estas diferenças contextuais levam
a distinções entre o que os alunos fazem em suas atividades de Modelagem e o que é
esperado dos matemáticos aplicados.
Esta situação tem levado a algumas incoerências entre a perspectiva teórica e a
prática de Modelagem na sala de aula. Ilustramos com um caso relatado por
Biembengut (1990), em que os alunos investigaram quanto custa construir uma casa.
Para isto, eles listaram os materiais necessários, coletaram os preços, efetuaram cálculos
e organizaram os resultados, sem construírem um modelo matemático propriamente
dito.
Outra ilustração pode ser trazida do relato de pesquisa de Araújo (2000), que
aponta um grupo de alunas que criou uma situação-problema imaginária – a
temperatura no decorrer do ano de uma cidade fictícia - para abordá-la
matematicamente. Os modeladores profissionais, ao contrário, investigam situações
concretas trazidas por outras áreas do conhecimento que não a matemática.
A par disto, argumentamos por uma perspectiva teórica que se ancore na prática
de Modelagem corrente na Educação Matemática e faça dela seu objeto de crítica a fim
de nutrir a própria prática. O termo “crítica”, que vem do grego kritiké, é entendido
como a arte de julgar e analisar (Japiassu & Marcondes, 1990). Não há a pretensão de
esgotar o assunto neste artigo, nem de colocar suas posições na alteridade dos discursos.
Nossa intenção é apontar a necessidade de Modelagem - na perspectiva da Educação3
Matemática - se envolver no ciclo permanente da teoria-prática, oferecendo nossa
contribuição inicial.
O presente trabalho, portanto, se constitui numa modalidade de ensaio teórico: um
estudo bem desenvolvido, formal, discursivo e concludente, consistindo numa exposição
lógica e reflexiva e numa argumentação rigorosa com alto nível de interpretação e
julgamento pessoal (Severino, 1996, p. 120). Mas não se trata, frisamos, de um trabalho
teórico puro, já que estamos subsidiados nas práticas relatadas na literatura e em nossas
próprias experiências de Modelagem em sala de aula. Apresentamos neste trabalho, de
maneira sistematizada, o esboço de uma perspectiva teórica que pretende fundamentar a
prática de Modelagem, suas limitações e possibilidades.
Esta alteração de foco pode gerar uma argumentação pela mudança da
terminologia. Entretanto, tentativas de outros nomes – como Modelação – não vingaram
na Educação Matemática brasileira (Biembengut, 1990). O termo Modelagem continua
sendo reconhecido pela comunidade, o que garante sua legitimidade.
2. As tendências em Modelagem e a corrente sócio-crítica
Modelagem pode ser definida em termos dos propósitos e interesses subjacentes à
sua implementação, conduzindo a implicações conceituais e curriculares. KaiserMessmer (1991) aponta duas visões gerais que predominam nas discussões
internacionais sobre Modelagem: a pragmática e a científica.
A corrente pragmática argumenta que o currículo deve ser organizado em torno
das aplicações, removendo os conteúdos matemáticos que não são aplicáveis em áreas
não-matemáticas. Os tópicos matemáticos ensinados na escola devem ser aqueles que
são úteis para sociedade (ibid., p. 84). A ênfase é colocada no processo de resolução de
problemas aplicados, focalizando o processo de construção de modelos matemáticos.
A corrente científica, por sua vez, busca estabelecer relações com outras áreas a
partir da própria matemática. Ela considera a ciência matemática e sua estrutura como
um guia indispensável para ensinar matemática, a qual não pode ser abandonada
(ibid., p. 85). Modelagem, para os “científicos”, é vista como uma forma de introduzir
novos conceitos.
Em suma, a corrente pragmática volta-se para aspectos externos da matemática
enquanto que a científica, para os internos. O foco permanece, portanto, na matemática
e sua capacidade de resolver problemas de outras áreas. 4
Skovsmose (1990) distingue três tipos diferentes de conhecimento que podem ser
relacionados à Modelagem Matemática:
- o conhecimento matemático em si;
- o conhecimento tecnológico, que se refere a como construir e usar um modelo
matemático;
- o conhecimento reflexivo, que se refere à natureza dos modelos e os critérios
usados em sua construção, aplicação e avaliação.
A par disto, as correntes pragmática e científica estacionam no conhecimento
matemático e tecnológico, mostrando reduzido interesse pelo conhecimento reflexivo.
Porém, há uma parcela significativa da literatura que avança até o domínio do
conhecimento reflexivo, como no caso de muitos estudos brasileiros e internacionais
(Fiorentini, 1996; Julie, 1998; Keitel, 1993; Skovsmose, 1994).
Esta limitação na classificação realizada por Kaiser-Messmer (ibid.) leva-nos a
sugerir uma terceira corrente, a qual chamaremos de sócio-crítico. As atividades de
Modelagem são consideradas como oportunidades para explorar os papéis que a
matemática desenvolve na sociedade contemporânea. Nem matemática nem
Modelagem são “fins”, mas sim “meios” para questionar a realidade vivida. Isso não
significa que os alunos possam desenvolver complexas análises sobre a matemática no
mundo social, mas que Modelagem possui o potencial de gerar algum nível de crítica. É
pertinente sublinhar que necessariamente os alunos não transitam para a dimensão do
conhecimento reflexivo, de modo que o professor possui grande responsabilidade para
tal.
Ilustremos com um exemplo imaginário. Suponhamos que os alunos estejam com
o seguinte problema: planejar os gastos com publicidade de uma empresa. Tomaram os
preços de vários publicitários para produzir propagandas. Também obtiveram os preços
que os canais de televisão e rádios cobram para veiculá-las. Através de programação
linear, acharam uma solução para o problema posto. Até aqui, os alunos estiveram
envolvidos com o conhecimento de matemática em si e o conhecimento de Modelagem.
Mas poderiam também analisar e examinar o que estão fazendo ou o que fizeram: “Este
resultado é válido?”, “Por que?”, “Como podemos garantir?”, “Ao traduzirmos a
situação em termos matemáticos, o que perdemos?”, “O que ganhamos?”, “O que
garante os procedimentos matemáticos adotados?”, “Há pressupostos implícitos?”, “As
manipulações matemáticas podem nos dizer algo sobre a situação?”. Mais ainda: “É
seguro tomar a decisão baseada nesta abordagem matemática do problema?”, Por que é 5
importante a propaganda para a empresa?”, “Qual o impacto sobre as vendas?”, “Que
papel a mídia desempenha nos hábitos das pessoas?”, “Qual a relação com o
consumismo?”, “Somos autônomos perante a mídia?”. Muitas outras questões poderiam
ser formuladas. Todas elas se situam na dimensão do conhecimento reflexivo. O que
chamamos de corrente sócio-crítica de Modelagem sublinha que as atividades devem
potencializar a reflexão sobre a matemática, a própria Modelagem e seu significado
social.
Nesta visão, não é apropriada a separação entre aquilo que é útil ou não, como se
faz nas correntes pragmática ou científica. O que não tem aplicações na atualidade,
pode ter posteriormente. Igualmente, aplicações podem gerar novas idéias, novos
procedimentos. Tanto matemática aplicada como pura fazem parte do que
convencionamos chamar de matemática, de modo os alunos podem transitar livremente
entre ambas. Borba, Meneghetti e Hermini (1997) citam um caso onde as alunas
utilizaram a situação do problema para justificar procedimentos matemáticos. Já Araújo
(2000) fala-nos de um episódio em que as alunas se descolaram do problema aplicado e
focaram na discussão acerca do conceito de continuidade. Portanto, não advogamos um
currículo baseado nem somente nas aplicações nem somente na estrutura da
matemática. Julgamos que a educação matemática deve envolver todas as instâncias
implicadas no conhecimento matemático. Modelagem é uma delas. É necessária, mas
não suficiente.
3. Modelagem como ambiente de aprendizagem
Modelagem pode ser entendida em termos mais específicos. Do nosso ponto de
vista, trata-se de uma oportunidade para os alunos indagarem situações por meio da
matemática sem procedimentos fixados previamente e com possibilidades diversas de
encaminhamento. Os conceitos e idéias matemáticas exploradas dependem do
encaminhamento que só se sabe à medida que os alunos desenvolvem a atividade.
Porém, alguns casos podem ser mais propícios a alguns conceitos matemáticos – por
exemplo, situações que envolvem variação podem levar a idéias do Cálculo ou Pré-
cálculo -, mas nada garante que os alunos se inclinem por eles.
Esta natureza “aberta” que sustentamos para as atividades de Modelagem nos
impossibilita de garantir a presença de um modelo matemático propriamente dito na
abordagem dos alunos. Somente a análise dos caminhos seguidos na resolução pode nos 6
falar sobre sua ocorrência; eles podem desenvolver encaminhamentos que não passem
pela construção de um modelo matemático.
Skovsmose (2000) apresenta a noção de ambiente de aprendizagem para se referir
às condições nas quais os alunos são estimulados a desenvolverem determinadas
atividades. O termo “ambiente” diz respeito a um lugar ou espaço que cerca, envolve. O
ensino tradicional é um ambiente de aprendizagem, pois estimula os alunos a
desenvolverem certas atividades; a história da matemática como recurso didático,
também; e assim por diante. Modelagem, como entendemos, estimula os alunos a
investigarem situações de outras áreas que não a matemática por meio da matemática.
Podemos, agora, falar no ambiente de aprendizagem de Modelagem. Apesar da
possibilidade de definir uma outra terminologia para qualificar a Modelagem – como a
palavra método vindo da Matemática Aplicada - nos termos que se queira, preferimos
procurar uma que traduza nosso entendimento sobre esta temática.
Debrucemo-nos sobre o entendimento de Modelagem esboçado neste texto.
Formulado de maneira sintética, assumimos que Modelagem é um ambiente de
aprendizagem no qual os alunos são convidados a indagar e/ou investigar, por meio da
matemática, situações oriundas de outras áreas da realidade.
O ambiente é colocado aqui em termos de “convite” aos alunos, tomando por
referência a argumentação de Skovsmose (ibid.). Segundo este autor, os alunos podem
não se envolver nas tarefas sugeridas. O ambiente de aprendizagem que o professor
organiza pode apenas colocar o convite. O envolvimento dos alunos ocorre na medida
em que seus interesses se encontram com esse.
Neste caso, o convite faz referência à indagação e investigação. Para Paulo Freire,
a indagação é o próprio caminho da educação:
O que o professor deveria ensinar – porque ele próprio deveria sabê-lo – seria,
antes de tudo, ensinar a perguntar. Porque o início do conhecimento, repito, é
perguntar. E somente a partir de perguntar é que se deve sair em busca de
respostas e não o contrário (Freire & Faundez, 1998, p. 46).
A indagação não se limita à explicitação do problema, mas uma atitude que
permeia o processo de resolução. Se tomarmos Modelagem de um ponto de vista sóciocrítico, a indagação ultrapassa a formulação ou compreensão de um problema,
integrando os conhecimento de matemática, de modelagem e reflexivo. Mendonça7
(1993) apresentou o conceito de problematização para se referir à formulação de um
problema, o qual pode ser parte do processo de indagar.
 A investigação é o caminho pelo qual a indagação se faz. É a busca, seleção,
organização e manipulação de informações. É uma atividade que não conhece
procedimentos a priori, podendo comportar a intuição e as estratégias informais. Podese dizer que Modelagem é uma investigação matemática, pois ela se dá por meio de
conceitos, idéias e algoritmos desta disciplina. Porém, deve-se distinguir das
investigações matemáticas que tratam de situações formuladas em termos da
matemática pura, sem referência a outras áreas do conhecimento (Abrantes, Ponte,
Fonseca et al., 1999).
Indagação e investigação são tidas como indissociáveis, pois uma só ocorre na
mesma medida da outra. Se o aluno não avança no conhecimento das informações sobre
a situação em estudo, não pode indagá-la; e vice-versa.
A situação em estudo diz respeito a um domínio fora da disciplina matemática, ou
seja, outras disciplinas ou o dia-dia, chamado por alguns autores por mundo real ou vida
real (Blum & Niss, 1991; Skovsmose, 2000). Esta terminologia carrega uma limitação
semântica, pois opõe matemática e mundo real, o que não aceitamos. Matemática é tão
real quanto qualquer outro domínio da realidade, já que, sendo idéias, interfere nas
ações e práticas sociais (D’Ambrósio, 1996; Skovsmose, 1994). Por isto, colocamos o
termo entre aspas e preferimos falar em situações oriundas de outras áreas da
realidade.
O entendimento de Modelagem que estamos apresentando privilegia situações
com circunstâncias que as sustente. O crescimento de uma planta, o fluxo escolar na
escola, a construção de uma quadra de esportes, o custo com propaganda de uma
empresa, a criação comercial de perus, o sistema de distribuição de água num prédio,
etc. são alguns exemplos possíveis.
Temos pouco interesse em situações fictícias elaboradas artificialmente -
chamadas por Skovsmose (2000) de semi-realidade - para atender aos propósitos do
ensino de matemática. Isto não quer dizer que elas não possam envolver os alunos em
ricas discussões; podem sim e devem integrar o currículo. Apenas, tal como as
investigações de matemática pura, não se enquadram confortavelmente na perspectiva

de Modelagem que sustentamos aqui.

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